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Suite para um quarto escuro


Como perceber e localizar os espaços internos, onde está armazenada a intimidade?

Memória, lembrança e sonhos são  coisas estranhas que não guardam uma  duração concreta do acontecido, retendo apenas  alguma profundidade.

Esses lugares da intimidade precisam ter o tom , as cores, e o colorido do nosso espaço interior , que não é aberto nem revelado para qualquer um.

Na sombra do quarto , embaixo da cama, coloco pequenas figuras . Elas passeiam e são puxadas  por entre os  laços  e linhas estreitas da memória,.

 Elas  percorrem um vasto território naquele lugar onde corríamos para nos esconder.

Num quarto escuro, embaixo da cama, aquele que sonha está protegido. Sou deixada quieta com minhas lembranças e sonhos. Fiquei protegida . A música,  colore  o espaço em tons  de cinza e prêto . Tudo se torna mais puro .E nesse silencioso colorido  sou tomada por uma sensação de uma coisa muito vasta, profunda e sem fronteiras.

No quarto escuro está a imensidão  daquele que está quieto e parado.

Meus pequenos personagens foram fixados  no espaço emocional. Ficaram  muito próximos  e calmos. Ficaram pequenos e cruciais..  Eles não são lembranças exatas  São lembranças imprecisas mas  que  só consigo chegar se for pela intimidade.. Finalmente protegidos. no espaço da intimidade, que não é aberto nem revelado para qualquer um.

 
MariaMattos – agosto 2010




O piano azul

O mundo da miniatura nos remete ao mundo do real mas com pouquíssimos riscos… É na construção desta narrativa que  somos transportados para  planos  longos com   percursos  extensos  montados com  uma ‘arquitetura’  de vastíssimas proporções, onde o observador,  é levado a acompanhar  a dificílima condução  de um piano de cauda . Como diferenciá-lo  do mundo que o contém?

Acompanhar a sua difícil e pesada trajetória através de um espaço  constuído  por  um vasto território branco, com o  ininterrupto  ranger dos seus pés , o que nos ajuda a sentir o seu enorme peso, é a nossa tarefa . Somos conduzidos  através de enormes e vastas distâncias , onde a dificuldade de transportá-lo é vivenciada pelo espectador, que acompanha  o passo-a-passo desta  enorme viagem que o “puxador“ nos submete.

O piano azul é visto como uma miniatura, mas não é sentido como  tal. Ele está proporcional aos ângulos de suporte da fotografia. Ele é deslocado para o campo do real e portanto  transformado  em objeto grande e pesado.

Ao ver  a miniatura de um piano azul ,  sendo puxado por uma linha , eu me desloco  e me separo do mundo ao redor, e é através  destes pequenos formatos , que eu me identifico com um lugar reservado e preservado , separado  do enorme, colossal, imenso.

Precisamos saber para onde estará indo o tão grande e delicado instrumento ?   Este piano não vai a lugar algum. Ele está num eterno movimento, num eterno porvir.
 

MariaMattos – agosto 2010